'Eu sigo adiante. Misturo-me a vocês. Acho vocês uns amores.'

terça-feira, 2 de março de 2010

Ansiedade.


Da janela do quarto acabei de ver dois carros brancos se encontrando na esquina e senti como se aquele cruzar fosse uma largada: 'comece o texto'. Fale sobre os desencontros, fale sobre os atrasos. Há tempos não tenho passado por inspirações dinâmicas, tudo tem andado rapidamente devagar, tanta coisa tem acontecido em tão pouco tempo, carregadas de insignificância. Tenho lido muito mais do que escrito. Me agarrei na companhia intelecto-pervertida de Rubem Fonseca e Caio Fernando Abreu, sublinhando frases, descobrindo artistas, escritores, obras. Tantas atividades fracassadamente construtivas.

'Nome nos jornais, causas vitoriosas, vezenquando faziam-no sorrir gratificado, pensando que, enfim, nem tudo estava perdido, ora. Mas estava. Embora ele não soubesse. Ou quem sabe estava tudo achado e não perdido, de tal maneira estão bem e mal interligados? O fato é que ele não sabia. Não sabendo, não podia lutar. Não podendo lutar, não podia vencer. Não podendo vencer, estava derrotado. Um derrotado em potencial, pois ele viu pela primeira vez.'

Quero me encher logo de algo que faça sentido
, que me faça sentir. Sei que a responsabilidade de me encontrar é puramente minha e garanto: to tentando, ok? Tá difícil, ok?

'E começou a afundar. Porque ver é permitido, mas sentir já é perigoso. Sentir aos poucos vai exigindo uma série de coisas outras, até o momento em que não se pode mais prescindir do que foi simples constatação'.

Andar por aí, esbarrar em outros seres nos cruzamentos da cidade e sempre ver nisso a possibilidade de um start criativo.
Mas pra eu me achar tenho mesmo é que aprender a desprender de mim e, então, depender de mim.

'eu ia como sempre sair caminhando sem saber aonde ir sem saber onde parar onde pôr as mãos os olhos e ia me dar aquela coisa escura no coração e eu ia chorar chorar durante muito tempo sem ninguém ver é verdade tenho pena de mim e sou fraco nunca antes uma coisa nem ninguém me doeu tanto como eu mesmo me dôo agora mas ao menos nesse agora eu quero ser como eu sou e como nunca fui e nunca seria se continuasse me entende eu não conseguiria não você não me entendeu nem entende nem entenderia você nem sequer soube sabe saberá amanhã você vai ler esta carta e nem vai saber que você poderia ser você mesmo e ainda que soubesse você não poderia fazer nada nem ninguém eu já não acredito nessas coisas por isso eu não te disse compreende talvez se eu não tivesse visto de repente o que vi não sei no momento em que a gente vê uma coisa ela se torna irreversível inconfundível porque há um momento do irremediável como existem os momentos anteriores de passar adiante tentando arrancar o espinho da carne há o momento em que o irremediável se torna tangível eu sei disso não queria demonstrar que li algumas coisas e até aprendi a lidar um pouco com as palavras apesar de que a gente nunca aprende mas aprende dentro dos limites do possível acho não quero me valorizar não sou nada e agora sei disso eu só queria ter tido uma vida completa elas eram horríveis mas não quero falar nisso podia falar de quando te vi pela primeira vez sem jeito de repente te vi assim como se não fosse ver nunca mais e seria bom que eu não tivesse visto nunca mais porque de repente vi outra vez e outra e outra e enquanto eu te via nascia um jardim nas minhas faces não me importo de ser vulgar não me importa o lugar-comum dizer o que outros já disseram não tenho mais nada a resguardar um momento à beira de não ser eu não sou mais tudo se revelou tão inútil à medida em que o tempo passava tudo caía num espaço enorme amar esse espaço enorme entre mim e você mas não se culpe deixa eu falar como se você não soubesse não se culpe por favor não se culpe ainda que esse som na campainha fosse gerada pelos teus dedos eu não atenderia eu me recuso a ser salvo'